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Segunda-feira, Março 16, 2009

Efeito Borboleta



“A 19 de Fevereiro de 1998, computadores do sistema de previsão de tempestades tropicais dos Estados Unidososticaram a formação de uma tempestade tropical, em três dias, sobre Louisiana. Sobre o Oceano Pacífico um meteorologista daquela agência descobriu que havia uma pequena diferença nas medições executadas, e que estas poderiam prever uma pequena diferença no deslocamento das massas de ar. A diferença foi detectada através de uma movimentação de ar em maior velocidade na região do Alasca.

Em função das diferenças, houve uma realimentação de dados nos computadores, que ao refazerem os seus cálculos previram que a formação da tempestade tropical em Lousiana não ocorreria, mas haveria sim a formação de um tornado de proporções gigantescas em Orlando, na Flórida, que realmente ocorreu a 22 de Fevereiro de 1998.

O simples bater das asas de uma borboleta no hemisfério sul pode ocasionar um furacão no hemisfério norte.”

(In Wikipedia)

Até a década de 80, os físicos defendiam a tese de que o universo era governado por leis precisas e estáticas, portanto os eventos nele ocorridos poderiam ser previstos. Porém a teoria do caos mostrou que certos eventos universais podem ter ocorrido de modo aleatório. Esta teoria estuda o comportamento aleatório e imprevisível dos sistemas, mostrando uma faceta onde podem ocorrer irregularidades na uniformidade da natureza como um todo. Isto ocorre a partir de pequenas alterações que aparentemente nada têm a ver com o evento futuro, alterando toda uma previsão física dita precisa.

Li a tua mensagem do início ao fim. Reli. Tive a certeza de que tudo poderia ter sido diferente. A questão que me coloco desde que assisti o filme “Efeito Borboleta” é: como teria sido se tivesse acontecido de outra forma?

Reflecti seriamente e sinto que se hoje voltasse atrás no tempo muita coisa poderia mudar. Certa de que o Homem é um ser em constante devir, não seria mais o que sou hoje. Não que isso me agrade. Não que também me desagrade. Sei que isso me permitiria ser melhor, muito melhor.

Hoje eu iria lutar com mais afinco pelos meus sonhos, não falaria o que falei, não magoaria como magoei, não daria falsas esperanças para ele, não seria tão egoísta ao ponto de me acobardar na ingenuidade dos que se aproximaram por amor. Não deixaria partir quem partiu por mera questão de orgulho, não traíria. Talvez também não chorasse ou lutasse pelo que agora se presenteia incompreensível.

Por sua vez, tudo isto teria alterado o meu futuro, o meu actual presente. Talvez hoje não tivesse do meu lado as pessoas maravilhosas que tenho, não estivesse a viver tal paixão ou só a tentar racionalizar e verbalizar tudo o que sinto, da forma como sinto. Provavelmente hoje não receberias mensagens minhas durante a noite com divagações ou pensamentos inusitados, não me abraçaria a ti e demonstraria com fervor tudo aquilo que vou sentindo, talvez até não nos conhecêssemos. Naturalmente não seria feliz como sou.

Hoje assistiria mais uma vez “Lost in Translation” e mais uma vez ficaria com a certeza de que cada momento tem de ser saboreado pelo instante efémero que representa.

Neste momento tenho duas escolhas, sempre: fazer de uma maneira ou fazer de outra. Vou optar pela que me parece mais correcta, o que não significa que o seja de facto.

Vou lutar sempre por chegar mais longe, por ser mais feliz e para fazer dos outros mais felizes. Vou lutar sempre por mim, por nós e por tudo aquilo em que sonho.

O Amanha começa hoje. Hoje é o resultado de Ontem.

Segundo William de Ockham, "...as melhores teorias são as mais simples. (…) as pluralidades não devem ser postas sem necessidade. (…)...isto é, sempre quando houver dois caminhos que levam à verdade, vale o mais simples... a natureza é económica”.


Quinta-feira, Setembro 04, 2008

O Segredo

O tempo não pára.
Falso amigo. Traiçoeiro e volátil. Umas vezes faz com que o queira sentir próximo, mais próximo. Outras com que o despreze com despojo.
Motivado por um conjunto de variáveis que não lhe são intrínsecas, aproveita-se de cada passo que dou em falso. De cada palavra que ficou por dizer, de um suspiro em vão, dos momentos efémeros da vida.

Talvez pudesse o tempo parar,
quando tudo em nós se precipita,
quando a vida nos desgarra os sentidos e
E não espera.
Ai, quem dera,
houvesse um canto para se ficar,
longe da guerra feroz que nos domina.
Se o amor fosse como um lugar a salvo,
sem medos, sem fragilidade.

Tão bom, pudesse o tempo parar
e voltar-se a preencher o vazio.
É tão duro aprender que na vida
nada se repete, nada se promete.
E é tudo tão fugaz e tão breve.

Tão bom pudesse o tempo parar
e encharcar-me de azul e de longe
Acalmar a raiva aflita da vertigem,
sentir o teu braço e puder ficar.

É tudo tão fugaz e tão breve,
como os reflexos da lua no rio.
Tudo aquilo que se agarra já fugiu.
É tudo tão fugaz e tão breve.

Fragilidade por Mafalda Veiga

Cada vez mais consciente da fugacidade da vida, todas as manhas ao acordar penso para mim mesma que todos temos sempre duas escolhas a fazer: encarar mais um dia de bom ou mau humor. Decididamente, obrigo-me a escolher constantemente encará-lo de bom humor.
Depois, cada vez que algo de mau acontece, posso escolher fazer-me de vítima ou aprender algo com o sucedido. A vida assim vivida ensinou-me a optar por assumir uma postura de aprendiz. Num futuro próximo ou longínquo sei que sairei beneficiada pela minha decisão. Cabe-me a mim escolher como reagir às situações; escolher como as pessoas vão afectar a minha vida; escolher para onde vou ou não. Escolher.

Life is made of choices and not of chances.

Quando examinas as coisas na sua essência há sempre uma escolha a fazer. É a escolha de como viver a vida.
Todos os dias tens a opção de viver plenamente e tomar decisões, acertadas ou não, mas que farão da tua vida o que ela é. Portanto, viver a vida é sobretudo uma questão de atitude.


Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades…
Fernando Pessoa

Segunda-feira, Agosto 18, 2008

Cartas

[Outro Encontro]


Regressei ao basket e tudo aquilo que fazia parte da minha vida. Agora, as passagens destes músculos que tento que regressem, fazem parte de um processo de adaptação cada vez mais lento. Pensei que com a força angariada num outro local, num outro contexto e desafio, fossem transferidas para esta imersão temporal soturna.
É tudo tão cinzento, neste regresso anunciado, nestas desculpas que se vão acumulando e das quais vou, lentamente, deixando para trás, para que não consumam as memórias que criei.
Sinto-me um regressado da guerra, feroz no campo de batalha, carregado de pesadelos durante a noite, repleto de suor quando nada o fazia antever, de sorrisos forçados, quando já me tinha deixado de o fazer.
E lembro-me muito de ti, agora que estás do outro lado do mundo, habituado a que estou à tua ausência. Forjei alianças com outras personagens, a ver se me esquecia da saudade que é não ver os teus limites físicos a tocar à campainha, pela manhã dentro, à procura de carinho e protecção que não te davam, nem te sabem dar, mas que eu também raras vezes tive.
Aqui sem ti, neste lugar abarcado pelo nevoeiro, vou ter de encontrar um outro lugar para cair, sem que alguém me segure, sem alguém que me mostre a mão, como tu sempre fazias.
O mistério da amizade, reside no amor que se sente, em parceria com a cumplicidade criada pelo mistério que são os nossos guarda-chuvas, quando unidos. Foi assim que me protegi do mundo lá fora e encontrei a sombra que sempre me faltou.
Faltas-me tu e a tua sabedoria retirada das manhãs da rádio, a irromperem no meu dia, como se fosse algo que eu pudesse evitar. Como se pudesse evitar a estranheza de toda a minha rotina estar a completar-se e eu parecer completamente impotente, a ponto de interromper o processo. Nada cheira a casa, daquelas que vemos na televisão e cujas personagens se deleitam num longo sofá a beber chã de tília, apenas porque a conta do gás foi um pouco mais cara, levando-os a quererem relaxar um pouco.O meu pai, voltou a andar por aqui.Voltou tudo a essa (a)normalidade subjacente na minha família, tão conhecida e reconhecida por ti.
Há questões bipolares para as quais não encontro solução. Vejo-me a ser arrastado pelo meu pai e pela minha mãe, entre questões tão antigas como o casamento de ambos e que a mim pouco me dizem. Sempre que tento marcar uma posição, cada um apresenta-me novos ou velhos argumentos, para que não o faça.
Enquanto isso, a minha existência acaba por ser influenciada por isto. Quem quer um pai em casa, aos dezanove anos? Ando a ler Agostinho da Silva, a ver se encontro alguém que defenda os meus ideais, a ver se encontro alguém com clareza de pensamento e paro de tropeçar nos meus joelhos.
Gostava de te ter aqui, mas acredito que tudo terá um sentido nesta incapacidade de conter a tua corporalidade presente em mim.
E já dizia Agostinho, que “o ter é diferente do amar”.
A ti, só te amo.
Miguel Praia


[(Des) encontro]
Facilmente me iludi com o turbilhão de sensações e toda a motricidade que envolveu o período anterior à viagem.
Tentei não pensar na tua ausência ou sequer no tempo à que não te via. Aos poucos, como que compulsivamente, comecei a procurar-te nos que me restavam, até perceber que a tua falta era incontornável.
Esperei-te.
Tinha tanto para te contar e não tinha como. Sentia tanto o silêncio que outrora era preenchido pela tua gargalhada histérica ou só pela troca de comentários dignos de apreço por verdadeiros analistas.
Sempre me tentaste proteger, à tua maneira. E eu sempre me refugiei no teu aconchego, no calor da tua casa, nas declarações e sonhos cúmplices, que partilhávamos até de madrugada. Por entre tantos enlaces e desenlaces, tantas paixonetas e pecados apetecidos foste pactuando comigo como nunca ninguém teve coragem. Foste sempre mais além, quebrando todas as barreiras e qualquer espaço protegido que restasse.
Esperei e não chegaste.
Tive receio de não ter a coragem suficiente para arriscar.
O rumo da vida havia-nos reservado esta surpresa. Eu ia partir sem te ver, sem te abraçar e sem poder recarregar forças no teu carisma. Acredito que nada acontecesse ao acaso e então resta-me crer que isso nos fortificará.
Parti e tu chegaste.
Quando cheguei, senti que tínhamos de vivenciar isto juntos. Já havíamos discutido a relevância destas experiências ao nível pessoal, social e profissional. Já tínhamos confessado a importância da necessidade de alargar os nossos horizontes culturais e pessoais, de amadurecer e adquirir novas formas de estar e pensar o quotidiano. Sempre fomos estimulados pela importância do sentimento de conquista.
Agora estás aí e reencontramo-nos aqui.
A fluência do teu discurso ajuda a suprimir a ausência do teu murmurar ao meu ouvido a dizer que vai tudo correr bem. Agora só mesmo o sussurro da Mafalda a falar de cumplicidade.
“A noite vem às vezes tão perdida e quase nada parece bater certo,há qualquer coisa em nós inquieta e ferida e tudo que era fundo fica perto. Nem sempre o chão da alma é seguro, nem sempre o tempo cura qualquer dor,e o sabor a fim do mar que vem do escuro é tantas vezes o que resta do calor. Se eu fosse a tua pele, se tu fosses o meu caminho. Se nenhum de nós se sentisse sozinho. Trocamos as palavras mais escondidas que só a noite arranca sem doer,seremos cúmplices o resto da vida ou talvez só ate amanhecer. Fica tão fácil entregar a alma a quem nos traga um sopro do deserto,olhar onde a distancia nunca acalma, esperando o que vier de peito aberto.”
Até à próxima.

Com todo o amor que não consigo escrever,
Penélope Monforte



[Comunhão]

Ainda não encontrei a coordenada para voltar a encontrar o pedaço de posição que aparentemente me fugiu, aquando da minha ida para o frio, naquela Universidade que mais parece uma brincadeira de pré-adolescentes. Sinto-me completamente desorientado, imensas vezes com o alarme de um início de uma crise devido ao facto de não saber em quem confiar ou permitir alguém, deixar entrar nessa porta , tantas vezes intransponível, que é a alegria da verdade do meu ser.
Para mim, existes já, só e apenas como uma ilusão exílada, com a qual sonho, mas da qual não me permito a ousadia e insensatez de agarrar, por saber que nunca te poderia tocar. Permito-me então às conversas curtas e sorrisos forçados, pessoas que comentam a vida dos outros em jantares colectivos, que apenas servem para nos separarem ainda mais.
Gostava de te ter aqui, a fim de analisarmos as conjecturas e interesses pelos quais as pessoas se movem e mesmo aqueles pelos quais as pessoas se acobardam. Alguém quis tirar de mim a amizade maior, aquela que apenas se fornece a quem a consegue por justiça e lealdade, mas depressa e cada vez mais percebo a indecência de tal pensamento. A pessoa em si não tem culpa. As limitações impostas por uma vida recheada de nadas e príncipes encantados levaram-na a que muitas das vezes não lutasse por nós, o que lutariamos sempre por ela.Este tipo de reflexão transporta-me para outra sensação: a falta de paciência.
Não percebo ainda , Penélope, o que aconteceu a esse meu dom, que era infinito e parecia ser eterno. Perco-me entre discussões e trambolhões, não aturo as quezílias de ninguém, farto-me principalmente da voz do lado e mesmo do silêncio de quem permanece à retaguarda. Queria encontrar de novo essa característica tão minha, mas ao que parece, foi enterrada no frio e na neve, à espera que eu próprio descongele e me deixe adaptar a esta nova realidade sonsória.De resto, leio atentamente as tuas mensagens escritas, que chegam do calor com cheirinho a samba.

Percorremos caminhos distantes, mas que se encontram sempre no mesmo trilho de destino e viragem. Passas exactamente pelo mesmo problema que eu passei, enquanto passeava pela Europa Central. Não é o desespero ou a frustração que te irão guiar, mas sim a alienação. Desliga o telemóvel, agarra-te aos teus parceiros, esquece de que existes e de que as pessoas que te criaram, mesmo usurfruindo de um título, não podem condiccionar a tua vida, a longos quilómetros de distância. A tua vida és tu, principalmente nesse bocado de terra onde permaneces, onde vidas são ceifadas todos os dias devido a um cachorro mal roubado.

Já dizem os Xutos, " A vida vai torta/Jamais se endireita", mas quando voltares hás-de regressar com vontade que o mundo à tua volta morra e embora não saibas explicar muito bem o que te acontece, acaba por ser uma sensação agradável, porque Erasmus é um encontro contigo própria onde só tu importas, onde só tu interessas.
Não cries ilusões. O mundo aqui vivido em nada influencia a tua disposição matinal, desse lado.

Sabes do que sinto falta? Da nossa comunhão levada a longas horas pela noite, quando aparecias de carro, nesse teu Mini descapotável, próprio de quem quer mais do que tem, mesmo que esse mais nunca lhe preencha as medidas. Sinto falta de ser livre, também. De sair de casa e poder rir, sem que ninguém me pergunte qual o meu rumo ( mas existe mesmo alguém que sabe?), de fazer bolas de neve e dizer merda sem que ninguém me perceba, de me perder na tradução das palavras, apenas porque são estrangeiras e não quando não concebo o seu significado neste contexto pós-moderno em que vivémos.Acima de tudo, queria voltar ao que antes já era, essa perdição de sensações, que acabei por perder a fim de alcançar a frieza destemível.

Apesar disso - e ainda - continuo a querer-te tanto, mais do que os Xutos alguma vez cantaram, mais do que alguma vez poderei escrever.

Miguel Praia



[Tempo]
O tempo passa e eu ando em contra-relógio.
Não que tenha muito para fazer, mas parece que o tempo nunca chega. Os mais atentos já perceberam, tal como eu, que aquilo que fazias há cinco anos numa hora, agora consegues fazer em duas horas e meia. E duas horas e meia com dedicação.
Questiono-me como é isto possível, uma vez que estamos emaranhados num mundo completamente tecnológico onde as máquinas só ainda não raciocinam por nós.
O tempo passa e eu vivo no entre a saudade do que deixei e a saudade do que vou ter de deixar.
Aqui encontrei quem me falasse de paixões e me ensinasse a viver cada momento como um instante efémero. Encontrei quem me ajudasse a compreender que a vida é construída no presente e não unicamente nas projecções do futuro. Não que aí não tivesse consciência disso, mas a ameaça constante do tempo fez-me perceber que é urgente rever as minhas prioridades.
Alem da saudade, sinto também receio. Receio do que me espera, do que mudou, daquilo que prosseguiu e para mim é como se tivesse estagnado.
Sinto um saudosismo nas tuas palavras. Não quero sofrer por antecipação, mas tenho dificuldade em aceitar que já só faltam dois meses. A incerteza do regresso faz com que sinta já uma melancolia doentia. É como querer acreditar que amanha vou acordar e tudo não passou de um sonho premonitório. Que afinal ainda estou no começo, a vossa ausência física ainda é dolorosa e que ainda controlo o tempo.
Contudo, agora uma certeza eu tenho: nada acontece ao acaso. Impreterivelmente afirmo que a vida não é só aquilo que fazemos dela, mas também. Há uma força irrevogável que prevalece nesses intrincados caminhos da vida de cada um. Caminhos esses que parecem estar estipulados e contrariar todas as ordens da física, da química ou até da biologia. A nós cabe-nos, apenas, fazer as escolhas.
Guimarães Rosa, dizia: “…O mais importante e bonito do mundo é isso: que os seres humanos não estão prontos, ainda não foram terminados, mas que eles estão sempre mudando...”. Estamos em constante mutação. Somos um produto imperfeito e cumulativo. A cada novo desafio temos sempre duas escolhas: fazer de uma maneira, ou fazer de outra. Quase me redimi aos clichés, mas na verdade o amanha começa hoje. Hoje é o resultado de ontem.
Com saudades do teu abraço amigo,
Penélope Monforte

Domingo, Maio 13, 2007

Do desaparecimento de Maddy ao espectáculo mediático das investigações

Eis que em época de rebelião geral política surge um rapto de uma criança inglesa, de 3 anos, em Lagos, que submerge a comunicação social de todo o mundo e até já os e-mails e telemóveis de todos. Madeleine Mccann, foi sequestrada no Algarve, por alguém que não se sabe quem, de onde veio, para onde foi, nem tão pouco os seus motivos.
Uma primeira explicação poderia levar-nos ao habitual conceito tradicional de rapto, ou seja, a do eventual pedido de resgate, afinal os pais de Maddy são médicos e o preço médio das casas na vila onde vivem ultrapassa o milhão de euros, facto que poderá ter chamado a atenção de um eventual raptor. No entanto, após todos estes dias de desaparecimento, ainda não foi feito qualquer pedido de resgate. A falta deste abre as portas a outras explicações mais dramáticas. De ministros a jogadores de futebol, todos lançam apelos ao(s) raptor(es) para que não façam mal à menina.
Sei que é uma situação bastante peculiar, no entanto, não consigo deixar de expressar a minha indignação face a alguns pormenores desta estória tão mal contada. Aliás, desta estória que já passou da procura obsessiva de uma doce menina, estrangeira efectivamente, logo à escala de tal, para se tornar num verdadeiro duelo entre polícia e media. Ora então comecemos precisamente por aqui. A pressão exercida pela imprensa mundial, especialmente a inglesa, ao por em causa a forma como as autoridades portuguesas estão a conduzir as operações, só veio servir de alavanca para o verdadeiro estratagema de buscas e investigação que se montou, jamais presenciado em Portugal. O panorama vai piorando após as várias conferências de imprensa, onde os detectives se mostram incapazes de apresentar dados novos e relevantes. A acrescentar a esta situação esbarram os depoimentos confusos expressos pelas testemunhas ao longo de todos estes dias.
Depois há a situação na qual as autoridades portuguesas, em Londres, ganham destaque ao recearem os danos na imagem do país como destino turístico, uma vez que se sabe que o Algarve é uma rota de eleição dos britânicos. Mas esperem, não estávamos a falar do desaparecimento de uma criança? E de uma criança inglesa! Bem, há efectivamente uma colisão de interesses, alheios à maioria da população. Uma espécie de triangulo que nos seus vértices apresenta: a policia (pela necessidade de apresentarem trabalho urgentemente), os media (que pressionam a policia pela falta de informação, da qual dependem vivamente) e, por fim, o turismo algarvio (que vê cair uma mancha negra sobre o seu programa “Allgarve”, sensatamente interrompido).
Ainda relativamente ao aparato das buscas e da massiva informação, eu até compreendo que uma situação deste género obrigue mesmo a toda esta interacção entre agentes policiais e investigadores, no entanto, em Portugal já desapareceram inúmeras crianças e ninguém viu ministros, directores, presidentes e futebolistas se envolverem como o fizeram agora. Aquando o desaparecimento de Cláudia Sousa, em Maio de 1994, alguém se lembra de algum ministro ter vindo falar publicamente? E quando Rui Pedro desapareceu, em 1998, será que foram montadas as operações policiais que temos acompanhado diariamente na Tv? Nos últimos quinze anos, desapareceram cerca de dez crianças, que nunca mais foram localizadas. A procura destas crianças conta agora apenas com a ajuda do “Projecto Esperança” e da própria esperança dos familiares e respectivos amigos. Como devem ter reparado, não se trata aqui de uma questão de insensibilidade a este rapto, no entanto, irrita-me esta hipocrisia e necessidade de “mostrar serviço e eficácia” para o mundo. Se a menina fosse portuguesa esta semana já ninguém ouvia falar do caso, era abafado por outro qualquer escândalo de corrupção politica. Infelizmente é a nossa realidade.
Para terminar, queria tentar não censurar o casal Mccann e, apesar de não conseguir imaginar o sofrimento por que passam no momento, acho que consigo facilmente julgar que devem estar a sentir alguns remorsos por ter deixado três crianças tão novas sozinhas, num quarto de um aldeamento algarvio, enquanto foram jantar.

Segunda-feira, Abril 23, 2007

Crónica de uma viagem pronunciada


Da teia burocrática

E quando tudo parecia estar resolvido, eis que a tendência era para piorar.
A euforia deu lugar a um estranho sentimento de autocontrolo utópico. Obviamente que havia recebido a nova que me possibilitava alem de levar uma mala, levar duas com mais de dez kg cada uma, como uma certa recompensa digna do mais persistente e desafortunado turista.
No entanto, logo aqui surge a primeira controvérsia. Não sendo o turismo nem a mera estada pelos mais belos pontos turísticos que me movia, tenho de partir da premissa que efectivamente fazer turismo é muito mais fácil do que tentar algo mais producente.
A verdade é que o que nos levou ao Consulado, aí umas sete ou oito vezes, era mesmo o tal do desejado Intercambio.
Não fosse o nosso país um poço de interesses, que ainda neste momento estaria a curar a depressão de não ter passado o Carnaval no Brasil. Com viagem comprada, bilhete na mão e munidas de todo o tipo de documentação original e fotocópias autenticadas, conseguimos com esforço árduo, da nossa parte, manter um diálogo de cerca de quatro minutos e meio com nuances de monólogo, repleto de questões retóricas. No final desse round fiquei com a sensação de que o Sr. Já estava a aborrecido ou então simplesmente se deixou derrotar e em género de machista com problemas de assunção social das suas preferências sexuais, conclui a nossa agradável conversação com um “Oh meninas vamos lá que não tenho a tarde toda.”
Quase que de propósito os meus olhos não se contêm e saúdam aquele homenzinho ali prostrado com uma ovação de choro.
Confiando na amizade da Vanessa, deixei-me ser evacuada do local de modo a não desmotivar os restantes presentes com ar esperançado.

“Quem não sabe é como quem não mexe”

Resignadas pelo conformismo tranquilo de todos de quem estávamos dependentes para entregar aquele pedido de visto, que mais parecia uma petição à UNESCO, lá alteramos a viagem.


“Dá menos mais trabalho.”


Numa nova incursão àquela que já se tornara a nossa segunda casa, o diálogo não só acendeu como queimou o funcionário que nos atendeu.
Estava eu barricada no hall de entrada do Consulado, enquanto que a Vanessa, o pai dela e a minha mãe, permaneciam na câmara que separa o elevador da porta de entrada, numa disputa intrigante que envolvia a mesma expressão repetida consecutivamente: “Te garanto que sim!” afirmava a Vanessa, ao que lhe respondiam peremptória e continuadamente “Txi garanto que não!”.
Face a tal tête-à-tête, achei mais seguro voltarmos na segunda dentro do período rigoroso que circunscrevia o horário laboral daquela gente tão mal-disposta. Seria do frio que se fazia sentir? Tipo…uma espécie de castigo face às noticias constantes das altas temperaturas que se sentem pelas terras de samba? Ou seria só o stress que parece atacar os brasileiros no período pré-carnaval, mesmo aqueles que não lá estão mas nas quais esse mesmo stress actua sob efeito placebo.
Com um ânimo quase impossível de corromper lá comparecemos na segunda bem cedo. Não pensem que ficou resolvido desta! Obviamente que faltava qualquer coisa.
Sempre acompanhadas pelas capas que agora inexoravelmente estão associadas a esta aventura e as quais nos acompanham, percebemos que…tínhamos toda a documentação exigida, no entanto o fax não estava autenticado.
Sem mais paciência para a típica burocracia destes locais onde exigem vinte documentos dos quais apenas cinco servem para o que é de facto solicitado, ligamos para a faculdade acolhedora e pedimos que o enviassem com urgência para o consulado onde permaneceríamos à espera do mesmo.
Não foi uma grande espera.
Quem esperou três meses por ele, também esperava mais umas horas sem perder vez ou correr o risco de chegar fora do horário incorruptível de atendimento.
Finalmente e para acabar este período narrativo de grande exaustão, lá conseguimos entregar o pedido para o visto de estudante.
O meu optimismo foi destronado com uma simples frase “Podem vir busca-lo no dia 1 de Março”. Não consegui! Bombardeei-o com mil e uma perguntas sob as formas mais sórdidas de conseguir esse maldito documento com URGENCIA. Nada! Só não tive coragem para tentar o suborno directo. Confirmo que não foi pelos escrúpulos. Acho que o que me inibiu foi mesmo o facto de estar pouca gente na sala, que facilmente se aperceberia do sucedido e certamente tornaríamos aquele local numa espécie de concentração de accionistas na bolsa.

“Dói-me os dentes de tanto chiclar.”


Inconformada, abandonei o local.
Na volta para casa apenas pensava qual seria a solução para adiantar o maldito processo. Nem ouvir musica e cantar conseguia.
Uns tantos telefonemas e nunca me pareceu tão conveniente morar num país onde a troca de influencias é a solução para alguns constrangimentos desvirtuados. Também não posso afirmar presunçosamente que foi ao terceiro telefonema.
Depois de montada uma teia de conhecimentos que interligava Porto-Lisboa à distância de uma chamada, e quando a esperança voltava a se desmoronar, eis que alguém com os seus conhecimentos vem trazer de novo um toque de optimismo à minha realidade.
O difícil não foi acreditar que ainda havia possibilidade de viajarmos em Fevereiro. O difícil foi convencer a Vanessa de que nós também tínhamos a famosa cunha do nosso lado. Não podia ser melhor, dentro de uma semana tínhamos o visto à nossa espera.
Independentemente deste empurrãozinho, lá tivemos de ir ao aeroporto adiar a viagem. Claro está que não foi chegar e alterar. Havia todo o pessimismo incontrolável da Vanessa para amestrar. Em consenso decidimos reservar uma outra viagem e caso de facto no dia prometido tivéssemos o tão desejado documento, seguiríamos para o aeroporto para pagar e acertar todos os detalhes da viagem.
Segunda-feira. 09h30. Entro pela porta do Consulado com um sorriso XXL, desconhecido do porteiro. Comigo levava também o nervosismo da intimação feita pela minha parceira. “Estou para ver o que vai acontecer hoje!!!”. Se não soubesse dos procedimentos utilizados para conseguirmos aquele selo no passaporte, diria que o corpo de funcionários do Consulado se havia cansado e, em jeito de desistência, tinham resolvido tratar exclusivamente da nossa situação. Assinamos o que havia para assinar e saí daquele local como se estivesse a sair da Santa Casa da Misericórdia após levantar o meu jackpot do EuroMilhões.
Nada me perturbou durante este dia. Estava envolta numa onda de tranquilidade e paz. Agora restava só esperar o dia do embarque.
Ah, e ir tratar da viagem ao aeroporto.


Quarta-feira, Outubro 18, 2006

Na minha barriga mando eu!


Como é do conhecimento geral, em Portugal, o aborto (ou interrupção voluntária da gravidez) é definido pelo Código Penal como crime contra a vida intra-uterina, com excepção de casos em que a gravidez representa risco para a vida da mulher ou para a sua saúde, malformação fetal ou quando a gravidez resulta de violação. Sendo crime, não só não pode ser realizado em território nacional como implica a criminalização das pessoas envolvidas no procedimento.
Estima-se que a cada seis minutos, algures no mundo, morre uma mulher devido a um aborto clandestino feito em más condições. Em Portugal, segundo a Women on Waves, são praticados, por ano, cerca de 20 mil abortos ilegais.
A meu ver, o facto de não se despenalizar o aborto está longe de impedir ou reduzir a sua prática. Diversas entidades, entre as quais a ONU, a Organização Mundial de Saúde, o Fundo das Nações Unidas para a População, a Associação Internacional para o Planeamento da Família, o Parlamento Europeu, têm vindo a alertar para as consequências do aborto clandestino na saúde das mulheres. A clandestinidade em que são efectuados somente acaba por colocar a vida das mulheres em risco e possibilitar a constituição de uma ampla rede de serviços clandestinos, na qual a qualidade da assistência cresce proporcionalmente à possibilidade que as mulheres têm de pagar por ela. Logo, também aqui são as mulheres pobres aquelas que mais sofrem os efeitos da ilegalidade.
Contudo, o que me parece urgente e crucial é melhorar eficazmente a difusão de informação, relativamente não só à prática, mas sobretudo, às consequências da mesma. Além dos efeitos psicológicos, derivados especialmente do Síndrome Pós-Aborto, ainda existem as inúmeras sequelas físicas como hemorragias, infecções, útero perfurado, distúrbios gastro-intestinais ou até a esterilidade, entre outras.
Mesmo tendo em conta todas as consequências deste procedimento, há ainda a questão peculiar do livre arbítrio. Esta representa uma grave lacuna na nossa democracia, na medida em que não se reconhece a autonomia das mulheres para decidirem a respeito da sua vida reprodutiva e de processos que ocorrem no seu próprio corpo.
Em 1997, uma lei previa a realização do aborto a pedido da mulheres até às 10 semanas de gravidez, no entanto o primeiro-ministro decidiu levar a cabo o referendo que acabou por se realizar em Junho de 1998. Apenas 31,8% dos eleitores foram votar. Destes, 50,5% votou contra o aborto. Apesar do referendo ser apenas válido com uma participação de mais de 50% dos eleitores, o Parlamento decidiu não avançar com a lei que tinha sido aprovada anteriormente.
Em Junho de 2002, o Parlamento Europeu através do relatório “Lancker” apelou aos países que não perseguissem mulheres que tivessem realizado um aborto ilegal, aconselhando a tornar o aborto legal, seguro e acessível.
Este fim-de-semana o líder socialista e primeiro-ministro, José Sócrates, defendeu o "sim" no referendo sobre a despenalização do aborto para acabar com os julgamentos a mulheres que recorrem às praticas abortivas. Segundo o mesmo, "não é para liberalizar. É para obter um equilíbrio entre as convicções pessoais e a liberdade. O primeiro objectivo da lei é não mandar para a prisão as mulheres que façam um aborto até às dez semanas de gravidez".
Concordo plenamente com a afirmação de José Sócrates. Nenhuma mulher aborta por prazer, e quem melhor do que a própria para decidir sobre os seus comportamentos e a sua vida?

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

Geração de atadinhos
Deparei-me com esta reportagem enquanto esperava pelo almoço, depois de mais uma manha de trabalho. Quando li o título “Geração de atadinhos” interessei-me mecanicamente, talvez por julgar tratar-se de mais uma de tantas criticas à minha geração, por mais um qualquer psicólogo em voga. Sim, porque agora é mais do que usual criticarem os jovens que lutam na tentativa de liderarem uma sociedade que sacrifica o conhecimento actual e o empenho jovial em detrimento da segurança da experiência. Acusam-nos de uma apatia da qual, inconscientemente, a meu ver, nem temos culpa. Alias, eu nem consideraria esse estado de apático, antes talvez de conformado ao panorama evidente da dificuldade de inserção e assunção na sociedade dos jovens recém licenciados. Mas este seria um novo assunto para uma outra boa reportagem.
Ora, a reportagem revelou-se uma verdadeira surpresa. Baseado no artigo “A nation of wimps” da jornalista americana Hara Marano, publicado na “Psychology Today” (PT), com argumentações de diversos especialistas norte-americanos da área, alerta para uma situação que se começa a tornar demasiadamente incontestável. No fundo uma situação da qual todos têm consciência, mas por implicar de todos “culpas no cartório”, ninguém ousa assumir publicamente os erros que se estão a cometer.
A geração de atadinhos é caracterizada basicamente por um excesso de atenção dos progenitores e por uma falta de autonomia e independência das crianças. Esse proteccionismo exacerbado origina seres frágeis, ao mesmo tempo agressivos e prepotentes. Esta antítese é facilmente explicada pela imagem mental do filho por trás das pernas dos paizinhos, agarrados às calças/saias do respectivo, que lá do alto dá a cara e discute por qualquer advertência feita a estas criaturas débeis.
Todos nos lembramos certamente de um dia ter pensado “jamais farei isto ao meu filho”, e é mesmo isso que esta reportagem vem demonstrar. Na generalidade, está-se a contrariar todo o legado educacional que nos tornou naquilo que actualmente somos, com satisfação. O resultado da nossa educação está vivo em nós mesmos e parece que o queremos ignorar. Este cenário, dos filhos primorosamente educados sob a lei do afecto, começa a tornar-se preocupante, pois os miúdos de hoje começam a deixar de conhecer o risco, a persistência e a ousadia de tentar.
Ao ler este artigo facilmente constatamos que o tipo de educação generalizada que se cultiva actualmente, e aquele que muitos já projectam, não é de facto o mais correcto. Segundo o psicólogo infantil David Elkinol, citado na PT, “as crianças precisam de se sentir infelizes de vez em quando”. Lembro-me de em criança me sentir desamparada e triste face à indiferença dos meus pais perante a repreensão da professora, em frente à turma inteira. No entanto, tenho consciência de que foi essa ausência de proteccionismo, que me ensinou a assumir os meus erros, a ultrapassar as barreiras que se cruzaram comigo até hoje e poder ter auto-estima para afirmar “consegui graças a mim”.
Actualmente, uma situação deste género ocasionaria imediatamente uma reunião de encarregados de educação, que juntos aguardariam pela professora para depois de a agredirem verbalmente, ainda pedirem explicações para o sucedido.
É a politica do “passa a culpa”. Ao invés de se atribuírem as responsabilidades ao adolescente, que tirou um dois a matemática porque não se esforçou ou não estudou o suficiente, a culpa é do Ministério porque o programa é muito extenso. Se repararmos, nascemos todos da mesma maneira, eles não nasceram mais frágeis, mas rapidamente se tornam.
“É preciso falhar, fazer mal, errar, para aprender a fazer bem feito”.