Cartas
[Outro Encontro]
Regressei ao basket e tudo aquilo que fazia parte da minha vida. Agora, as passagens destes músculos que tento que regressem, fazem parte de um processo de adaptação cada vez mais lento. Pensei que com a força angariada num outro local, num outro contexto e desafio, fossem transferidas para esta imersão temporal soturna.
É tudo tão cinzento, neste regresso anunciado, nestas desculpas que se vão acumulando e das quais vou, lentamente, deixando para trás, para que não consumam as memórias que criei.
Sinto-me um regressado da guerra, feroz no campo de batalha, carregado de pesadelos durante a noite, repleto de suor quando nada o fazia antever, de sorrisos forçados, quando já me tinha deixado de o fazer.
E lembro-me muito de ti, agora que estás do outro lado do mundo, habituado a que estou à tua ausência. Forjei alianças com outras personagens, a ver se me esquecia da saudade que é não ver os teus limites físicos a tocar à campainha, pela manhã dentro, à procura de carinho e protecção que não te davam, nem te sabem dar, mas que eu também raras vezes tive.
Aqui sem ti, neste lugar abarcado pelo nevoeiro, vou ter de encontrar um outro lugar para cair, sem que alguém me segure, sem alguém que me mostre a mão, como tu sempre fazias.
O mistério da amizade, reside no amor que se sente, em parceria com a cumplicidade criada pelo mistério que são os nossos guarda-chuvas, quando unidos. Foi assim que me protegi do mundo lá fora e encontrei a sombra que sempre me faltou.
Faltas-me tu e a tua sabedoria retirada das manhãs da rádio, a irromperem no meu dia, como se fosse algo que eu pudesse evitar. Como se pudesse evitar a estranheza de toda a minha rotina estar a completar-se e eu parecer completamente impotente, a ponto de interromper o processo. Nada cheira a casa, daquelas que vemos na televisão e cujas personagens se deleitam num longo sofá a beber chã de tília, apenas porque a conta do gás foi um pouco mais cara, levando-os a quererem relaxar um pouco.O meu pai, voltou a andar por aqui.Voltou tudo a essa (a)normalidade subjacente na minha família, tão conhecida e reconhecida por ti.
Há questões bipolares para as quais não encontro solução. Vejo-me a ser arrastado pelo meu pai e pela minha mãe, entre questões tão antigas como o casamento de ambos e que a mim pouco me dizem. Sempre que tento marcar uma posição, cada um apresenta-me novos ou velhos argumentos, para que não o faça.
Enquanto isso, a minha existência acaba por ser influenciada por isto. Quem quer um pai em casa, aos dezanove anos? Ando a ler Agostinho da Silva, a ver se encontro alguém que defenda os meus ideais, a ver se encontro alguém com clareza de pensamento e paro de tropeçar nos meus joelhos.
Gostava de te ter aqui, mas acredito que tudo terá um sentido nesta incapacidade de conter a tua corporalidade presente em mim.
E já dizia Agostinho, que “o ter é diferente do amar”.
A ti, só te amo.
Miguel Praia
[(Des) encontro]
Facilmente me iludi com o turbilhão de sensações e toda a motricidade que envolveu o período anterior à viagem.
Tentei não pensar na tua ausência ou sequer no tempo à que não te via. Aos poucos, como que compulsivamente, comecei a procurar-te nos que me restavam, até perceber que a tua falta era incontornável.
Esperei-te.
Tinha tanto para te contar e não tinha como. Sentia tanto o silêncio que outrora era preenchido pela tua gargalhada histérica ou só pela troca de comentários dignos de apreço por verdadeiros analistas.
Sempre me tentaste proteger, à tua maneira. E eu sempre me refugiei no teu aconchego, no calor da tua casa, nas declarações e sonhos cúmplices, que partilhávamos até de madrugada. Por entre tantos enlaces e desenlaces, tantas paixonetas e pecados apetecidos foste pactuando comigo como nunca ninguém teve coragem. Foste sempre mais além, quebrando todas as barreiras e qualquer espaço protegido que restasse.
Esperei e não chegaste.
Tive receio de não ter a coragem suficiente para arriscar.
O rumo da vida havia-nos reservado esta surpresa. Eu ia partir sem te ver, sem te abraçar e sem poder recarregar forças no teu carisma. Acredito que nada acontecesse ao acaso e então resta-me crer que isso nos fortificará.
Parti e tu chegaste.
Quando cheguei, senti que tínhamos de vivenciar isto juntos. Já havíamos discutido a relevância destas experiências ao nível pessoal, social e profissional. Já tínhamos confessado a importância da necessidade de alargar os nossos horizontes culturais e pessoais, de amadurecer e adquirir novas formas de estar e pensar o quotidiano. Sempre fomos estimulados pela importância do sentimento de conquista.
Agora estás aí e reencontramo-nos aqui.
A fluência do teu discurso ajuda a suprimir a ausência do teu murmurar ao meu ouvido a dizer que vai tudo correr bem. Agora só mesmo o sussurro da Mafalda a falar de cumplicidade.
“A noite vem às vezes tão perdida e quase nada parece bater certo,há qualquer coisa em nós inquieta e ferida e tudo que era fundo fica perto. Nem sempre o chão da alma é seguro, nem sempre o tempo cura qualquer dor,e o sabor a fim do mar que vem do escuro é tantas vezes o que resta do calor. Se eu fosse a tua pele, se tu fosses o meu caminho. Se nenhum de nós se sentisse sozinho. Trocamos as palavras mais escondidas que só a noite arranca sem doer,seremos cúmplices o resto da vida ou talvez só ate amanhecer. Fica tão fácil entregar a alma a quem nos traga um sopro do deserto,olhar onde a distancia nunca acalma, esperando o que vier de peito aberto.”
Até à próxima.
Com todo o amor que não consigo escrever,
Penélope Monforte
[Comunhão]
Ainda não encontrei a coordenada para voltar a encontrar o pedaço de posição que aparentemente me fugiu, aquando da minha ida para o frio, naquela Universidade que mais parece uma brincadeira de pré-adolescentes. Sinto-me completamente desorientado, imensas vezes com o alarme de um início de uma crise devido ao facto de não saber em quem confiar ou permitir alguém, deixar entrar nessa porta , tantas vezes intransponível, que é a alegria da verdade do meu ser.
Para mim, existes já, só e apenas como uma ilusão exílada, com a qual sonho, mas da qual não me permito a ousadia e insensatez de agarrar, por saber que nunca te poderia tocar. Permito-me então às conversas curtas e sorrisos forçados, pessoas que comentam a vida dos outros em jantares colectivos, que apenas servem para nos separarem ainda mais.
Gostava de te ter aqui, a fim de analisarmos as conjecturas e interesses pelos quais as pessoas se movem e mesmo aqueles pelos quais as pessoas se acobardam. Alguém quis tirar de mim a amizade maior, aquela que apenas se fornece a quem a consegue por justiça e lealdade, mas depressa e cada vez mais percebo a indecência de tal pensamento. A pessoa em si não tem culpa. As limitações impostas por uma vida recheada de nadas e príncipes encantados levaram-na a que muitas das vezes não lutasse por nós, o que lutariamos sempre por ela.Este tipo de reflexão transporta-me para outra sensação: a falta de paciência.
Não percebo ainda , Penélope, o que aconteceu a esse meu dom, que era infinito e parecia ser eterno. Perco-me entre discussões e trambolhões, não aturo as quezílias de ninguém, farto-me principalmente da voz do lado e mesmo do silêncio de quem permanece à retaguarda. Queria encontrar de novo essa característica tão minha, mas ao que parece, foi enterrada no frio e na neve, à espera que eu próprio descongele e me deixe adaptar a esta nova realidade sonsória.De resto, leio atentamente as tuas mensagens escritas, que chegam do calor com cheirinho a samba.
Percorremos caminhos distantes, mas que se encontram sempre no mesmo trilho de destino e viragem. Passas exactamente pelo mesmo problema que eu passei, enquanto passeava pela Europa Central. Não é o desespero ou a frustração que te irão guiar, mas sim a alienação. Desliga o telemóvel, agarra-te aos teus parceiros, esquece de que existes e de que as pessoas que te criaram, mesmo usurfruindo de um título, não podem condiccionar a tua vida, a longos quilómetros de distância. A tua vida és tu, principalmente nesse bocado de terra onde permaneces, onde vidas são ceifadas todos os dias devido a um cachorro mal roubado.
Já dizem os Xutos, " A vida vai torta/Jamais se endireita", mas quando voltares hás-de regressar com vontade que o mundo à tua volta morra e embora não saibas explicar muito bem o que te acontece, acaba por ser uma sensação agradável, porque Erasmus é um encontro contigo própria onde só tu importas, onde só tu interessas.
Não cries ilusões. O mundo aqui vivido em nada influencia a tua disposição matinal, desse lado.
Sabes do que sinto falta? Da nossa comunhão levada a longas horas pela noite, quando aparecias de carro, nesse teu Mini descapotável, próprio de quem quer mais do que tem, mesmo que esse mais nunca lhe preencha as medidas. Sinto falta de ser livre, também. De sair de casa e poder rir, sem que ninguém me pergunte qual o meu rumo ( mas existe mesmo alguém que sabe?), de fazer bolas de neve e dizer merda sem que ninguém me perceba, de me perder na tradução das palavras, apenas porque são estrangeiras e não quando não concebo o seu significado neste contexto pós-moderno em que vivémos.Acima de tudo, queria voltar ao que antes já era, essa perdição de sensações, que acabei por perder a fim de alcançar a frieza destemível.
Apesar disso - e ainda - continuo a querer-te tanto, mais do que os Xutos alguma vez cantaram, mais do que alguma vez poderei escrever.
Miguel Praia
[Tempo]
O tempo passa e eu ando em contra-relógio.
Não que tenha muito para fazer, mas parece que o tempo nunca chega. Os mais atentos já perceberam, tal como eu, que aquilo que fazias há cinco anos numa hora, agora consegues fazer em duas horas e meia. E duas horas e meia com dedicação.
Questiono-me como é isto possível, uma vez que estamos emaranhados num mundo completamente tecnológico onde as máquinas só ainda não raciocinam por nós.
O tempo passa e eu vivo no entre a saudade do que deixei e a saudade do que vou ter de deixar.
Aqui encontrei quem me falasse de paixões e me ensinasse a viver cada momento como um instante efémero. Encontrei quem me ajudasse a compreender que a vida é construída no presente e não unicamente nas projecções do futuro. Não que aí não tivesse consciência disso, mas a ameaça constante do tempo fez-me perceber que é urgente rever as minhas prioridades.
Alem da saudade, sinto também receio. Receio do que me espera, do que mudou, daquilo que prosseguiu e para mim é como se tivesse estagnado.
Sinto um saudosismo nas tuas palavras. Não quero sofrer por antecipação, mas tenho dificuldade em aceitar que já só faltam dois meses. A incerteza do regresso faz com que sinta já uma melancolia doentia. É como querer acreditar que amanha vou acordar e tudo não passou de um sonho premonitório. Que afinal ainda estou no começo, a vossa ausência física ainda é dolorosa e que ainda controlo o tempo.
Contudo, agora uma certeza eu tenho: nada acontece ao acaso. Impreterivelmente afirmo que a vida não é só aquilo que fazemos dela, mas também. Há uma força irrevogável que prevalece nesses intrincados caminhos da vida de cada um. Caminhos esses que parecem estar estipulados e contrariar todas as ordens da física, da química ou até da biologia. A nós cabe-nos, apenas, fazer as escolhas.
Guimarães Rosa, dizia: “…O mais importante e bonito do mundo é isso: que os seres humanos não estão prontos, ainda não foram terminados, mas que eles estão sempre mudando...”. Estamos em constante mutação. Somos um produto imperfeito e cumulativo. A cada novo desafio temos sempre duas escolhas: fazer de uma maneira, ou fazer de outra. Quase me redimi aos clichés, mas na verdade o amanha começa hoje. Hoje é o resultado de ontem.
Com saudades do teu abraço amigo,
Penélope Monforte